sábado, 10 de outubro de 2015

Senhor Fazei-me

Demorei um pouco para falar sobre isso, mas ficou a vontade de escrever sobre a missa incrível e a Palavra tocante que foi a de domingo, dia de São Francisco de Assis.

Antes de nos aprontar para ir, tomando café, costumamos deixar a televisão ligada e neste domingo estava no canal da Canção Nova. Acompanhei um Sermão mais que provocante, um verdadeiro tapa em nossa cara. Estava no meio, mas não teve importância porque estava em uma boa parte e aí me sentei para ouvir melhor. O padre dizia fervorosamente, que ao invés de pedirmos coisas a Deus, temos que nos doar. Sempre mais. E o quanto estamos dispostos a isso? Refletia que é comum hoje em dia entregarmos a Deus nossos pedidos mais que variados e complexos. É fato que aprendemos (erroneamente) que Deus é o grande solucionador das nossas várias necessidades, tem igrejas que até ensinam isso.

Mas as pessoas aí se sentem servidas por Deus e não querem fazer nada. Pedem Ó Deus dá-me isso. Deus. Dê-me aquilo, por favor... E esperam. Esperam. E se não conseguem, se frustram, se revoltam com Ele. Paralelo a isso, o padre fez uma comparação com o filho pródigo: Dá-me a parte que me cabe da herança...” (Lc 15,12), disse o jovem ao pai, e aí deu no que deu do que já conhecemos essa história. O rapaz foi parar no meio dos porcos e só aí lembrou que o pai tinha muitos empregados e eles não eram tratados assim. Ao chegar arrependido para o pai disse: Fazei-me um de seus empregados” (Lc 15,20).  E aí o pai o acolheu com grande festa.

Não se está aqui dizendo que não devemos pedir nada a Deus. Mas sim, devemos nos dirigir a Deus à aquilo que não nos é possível alcançar. Que só Ele pode prover. Isso sim! Ele é o Deus do impossível e Ele mesmo disse isso. “Eu sou, em verdade, o Senhor, o Deus de todas as criaturas. Haverá algo que me seja impossível?” (Mt 19,26). No entanto, temos que nos atentar que Deus nos dá aquilo que realmente precisamos e não o que queremos.
Nos dois primeiros versículos, vemos duas palavras: Dá-me, e fazei-me. E elas significam muito. O quanto estamos disponíveis para fazer algo?

Na missa, houve outra reflexão interessante que podemos juntar aqui com isso: “Por esse motivo é que o homem deixa a guarda de seu pai e sua mãe, para se unir à sua mulher e tornar-se uma só carne” (Gn 2,24). Pois bem! Homem unindo-se a mulher para se tornar um só. É muito bonito, mas o que isso quer dizer? Como pode duas pessoas se tornam uma só? É um desprendimento. O mais difícil. O unir-se aqui é fazer-se disponível, é fazer-se uma nova pessoa. E essa nova pessoa tem novos propósitos, tem novas angústias, tem novas descobertas e novas necessidades.
Emocionalmente, espiritualmente, intelectualmente, financeiramente e de toda outra forma, o casal deve se tornar um. Não há mais meu dinheiro, minhas saídas, minhas coisas. Mas nosso dinheiro, nossos passeios, nossas coisas.

Muitos casamentos se destroem porque não entendem esse simples raciocínio e a lógica de uma união matrimonial. O individualismo prevalece em muitas discussões e aí um fica na defensiva apontando os erros do outro. É natural. Mas não chega a lugar algum. (Discussões assim nunca chegam). Não entendem que o devem fazer primeiro é olhar para si próprio e ver o que pode fazer para melhorar. Conseguir se desprender e conseguir ouvir as reclamações do outro fará o outro também lhe ouvir, e depois agir na mudança juntos. Entender o relacionamento como um desprendimento é chave para um casamento de sucesso.

Claro que viver para o outro não é fácil, as emoções se afloram, impedimentos e limitações acontecerão. Mas é o caminho para se tornar um só. Fazer o outro totalmente feliz é doar-se completamente. Doar-se ao outro é o que São Francisco fez. Se desprender em razão do próximo e para Cristo é o que a belíssima oração dele nos ensina.
Lembro-me até hoje de um dia que minha esposa estava precisando de uma palavra confortante. Ela passava por problemas muitos sérios com seu pai. Mas não havia ninguém disponível. Eu já havia me colocado à sua disposição e a aconselhado, claro, mas ela precisava realmente de falar com mais alguém, de preferência alguém mais estudado. Fomos então à comunidade São Francisco que fica perto de casa, e lá o ministro ao final da celebração já ia indo embora quando o abordamos. Ela emocionada, solicitou sua atenção. Se notava facilmente que ele não tinha tempo nenhum. Mas mesmo assim a acolheu. Ele a tomou pela mão e levou até os fundos da igreja e por ali ficaram muito tempo conversando sozinhos. Muito tempo mesmo.

Nunca soube o que conversaram naquele longo tempo, mas sei que ela saiu bem melhor de lá. E com grandes mudanças. Eu não tenho duvidas que Cristo ali o usou como instrumento de paz, assim como diz a oração de São Francisco. Além do desprendimento e a doação muito forte de tempo que fez, houve também uma troca recíproca disso por parte dela. Ela procurava e sempre usava a palavra chave: “O que eu posso fazer para que meu pai mude?”. Não foi preciso mais nada. Com muita fé, Deus cuidou do restante.

Parece-me então que Deus tem bons olhos para a palavra Fazei-me.


Renato.